Bruno Linhares

Um blog sobre Comunicação, Marketing, Filosofia e Cultura

Nós, os Macacos (ou como blogs, MySpace, Youtube e a pirataria digital estão destruindo nossa economia, cultura e valores)

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A polêmica sobre o futuro da comunicação e os impactos causados pela ampliação da participação dos usuários na criação de conteúdo continua intensa. A opinião de jornalistas, profissionais especializados em Internet e, agora, atuantes da “blogsphera” enriquecem o debate, que ganhou cores dramáticas a partir da crise da mídia impressa com o desaparecimento – principalmente nos EUA – de vários veículos tradicionais e importantes.

 

Publicado há mais de dois anos, agora chega ao Brasil o controverso livro de Andrew Keen, com o sugestivo nome de “O Culto do Amador – como blogs, MySpace, Youtube e a pirataria digital estão destruindo nossa economia, cultura e valores”.

 

Li o livro, na versão publicada pela Zahar no Brasil, com atenção e cuidado que merece. Devo classificá-lo como uma peça de um momento muito particular na História recente – é um livro da era G. W. Bush (foi publicado em 2007, nos EUA), marco do pensamento conservador em diversos campos do conhecimento e da ação política e institucional ocidental. É, como explícito no próprio título, um libelo em defesa da “economia, cultura e valores” tradicionais norte-americanos, o que quer que isto venha a significar neste momento em que tudo balança a partir dos efeitos da crise econômica.

 

O livro se compõe a partir de alguns axiomas essenciais: (1) A “democratização” representada pela participação pública na criação do conteúdo coloca em risco os padrões culturais, os valores morais e as instituições que produzem notícias e a mídia “livre”; (2) Esta derrocada seria causada pela substituição dos “especialistas” que produzem o noticiário e a crítica, assim como os produtores de cultura de maneira geral, que passam a ter o seu espaço ocupado por amadores que invadem com mensagens fracas, distorcidas e indevidas os corações e a mente dos usuários; (3) Não há modelo econômico viável para a difusão de informações na Internet, o que irá causar a destruição das empresas de comunicação e a demissão de profissionais, deixando a sociedade a mercê da ação dos amadores; (4) A inexistência de proteção quanto aos direitos autorais de obras em geral – música, filmes, livros – na Internet também irá propiciar um rebaixamento sem precedentes do nível da produção artística e cultural.

 

O autor identifica a causa de todo o “Mal”: é a “Web 2.0”, termo muito em voga na época do lançamento do livro. Na verdade, Keen mistura uma série de fatores, problemas, tendências e questões para construir um modelo ideológico “anti Web 2.0” no melhor estilo de “evangelistas” dedicados a combater um poderoso inimigo. Que este inimigo não tenha uma face real nem contornos precisos só demarcam o caráter do discurso apresentado. Alguns conservadores, sejam os de origem religiosa ou política, buscam “demonizar” atitudes ou comportamentos que discordam e demonstram o medo profundo de transformações decorrentes de fatores econômicos, sociais ou tecnológicos. É neste tipo de quixotismo que o pensamento de Keen se inscreve.

 

Mas não o quixotismo cândido do herói “De La Mancha” – seu discurso está eivado de um profundo elitismo e de grave preconceito. Já na Introdução, o autor lança uma metáfora que irá seguir-nos durante todo o livro – a dos macacos, tomado emprestado de T.H.Huxley. O biólogo, avô de Aldous Huxley, teria lançado um teorema segundo o qual seria possível a criação de uma obra prima se fosse fornecido um número infinito de máquinas de escrever para um número infinito de macacos. Pois chegamos ao paralelo com a situação de hoje : “A mídia antiga está ameaçada de extinção … o que tomará o seu lugar serão os novos e incrementados mecanismos de busca, os sites de redes sociais e os portais de vídeo da Internet”. Logo, “os macacos assumem o comando. Diga adeus aos especialistas e guardiões da cultura de hoje … os macacos é que dirigirão o espetáculo”.

 

À idealização da “pureza” de intenções e a qualidade intrínseca dos veículos da grande mídia, soma-se o preconceito contra a criação do conteúdo por pessoas que não tem relações de trabalho com este tipo de organização. É colocado intencionalmente no mesmo saco um conjunto muito diferente de mensagens postadas por usuários, sejam as comunicações particulares entre pessoas e grupos, os blogs de cronistas independentes, os veículos desenvolvidos por organizações jornalísticas que atuam na Internet e os espaços criados por grupos de interesse específico.

 

Para Keen, não existe manipulação e tráfico de interesses nos veículos da mídia tradicional, já que os “sábios” que as dirigem são imunes a estes fatores ou criaram mecanismos de proteção muito adequados. Também não foram identificados graves problemas de qualidade no conteúdo dos veículos off line. No mundo róseo do passado, temos profissionais impolutos e bravos defensores da cultura e dos valores tradicionais, com sua neutra, não ideológica, edificante e economicamente válida criação de conteúdo. Na Internet atual, pululam “macacos”, com suas mensagens tolas e vazias ou factualmente erradas e intencionalmente distorcidas. Já não ouviram isto, de outra forma, em outro contexto?

 

Se devemos perceber o quanto a marcação ideológica condiciona o conjunto da obra, vale a pena, sob uma ótica menos “enquadrada” discutir uma série de fatos e problemas abordados. Tanto o modelo econômico a ser desenvolvido para sustentar os veículos de comunicação, como o problema da ética e dos riscos da manipulação e sem dúvida a questão dos direitos autorais necessitam da articulação entre a sociedade civil, os “players” de mercado e as autoridades para que sejam equacionados. Porque toda a transformação tecnológica ou econômica de caráter profundo traz conseqüências para a vida das pessoas e para o funcionamento da sociedade. Discutir e tratar essas questões, de preferência com um olhar aberto e a mente livre, podem ajudar a tornar seus efeitos mais benéficos e positivos.

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Written by brunolinhares

Maio 11, 2009 às 5:38 pm

7 Respostas

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  1. Oi, vruno! Linkamos este post na página do livro no site da Zahar – http://www.zahar.com.br/catalogo_detalhe.asp?id=1262
    Abraços

    Cecilia

    Maio 13, 2009 at 5:49 pm

    • Ótimo, Cecília, fico muito feliz.
      Abraços,

      brunolinhares

      Maio 13, 2009 at 6:01 pm

      • Oi, Bruno. Tudo bem? Passo por aqui para te contar que o Andrew Keen participará de um chat online nesta sexta, para discutir sobre os assuntos que ele aborda no “O Culto do Amador”. Pode ser uma boa oportunidade pra conhecer as ideias dele mais de perto. Segue o link com mais informações – http://www.talk2.com.br/?p=596
        Abraços

        Cecilia

        Maio 26, 2009 at 6:56 pm

      • Olá, Cecília, obrigado pela dica. Vou buscar participar. Abraços.

        brunolinhares

        Maio 26, 2009 at 8:42 pm

  2. Olá, Bruno. É importante o monitoramento da web, principalmente para conhecer a opinião das pessoas. Isto nos mostra exatamente o sentimento das pessoas em relação a marcas/produtos/livros etc. É um excelente termômetro.
    Um abraço!

    Cecilia

    Maio 12, 2009 at 8:19 pm

  3. Olá, Bruno. Tudo bem? Sou a Cecília e trabalho na Edelman, agência de comunicação da Jorge Zahar Editor. Muito lúcida a sua resenha e suas opiniões sobre o livro. Desde que a Zahar lançou “O Culto do Amador” por aqui, temos acompanhado discussões fervorosas, contra ou a favor do que Keen propõe no livro. Quanta mais discussão acerca do tema, melhor.
    Um abraço e parabéns pelo blog.

    Cecilia

    Maio 12, 2009 at 6:55 pm

    • Olá, Cecília. Em primeiro lugar, parabéns pelo excelente monitoramento da blogsphera – contrariando a visão do autor em questão, pelo que vejo você e sua empresa reconhecem a importância das opiniões emitidas na web e sabem que esssas instâncias fazem parte de uma nova era da comunicação social. Fico feliz que tenha gostado da resenha e do blog e agradeço a gentileza do comentário. Como os temas colocados pelo Andrew Keen abrangem vários e amplos aspectos, continuarei abordando questões mais específicas da contribuição do autor, buscando alimentar a necessária polêmica sobre assunto.

      Um abraço

      brunolinhares

      Maio 12, 2009 at 7:30 pm


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