Razões de Estado

A prisão de Julian Asenge demarca um novo momento nas relações entre os Estados e a Internet. O ataque ao criador do site WikiLeaks, sob o manto de obscuras alegações de crime sexual, inaugura a criminalização da livre expressão na web, uma das principais revoluções em termos de Comunicação Social da História.
Para os círculos conservadores, o espaço livre da web sempre foi uma preocupação. Com a internet se rompem as barreiras de controle, sejam econômicas ou políticas, sobre a criação e difusão de conteúdo, dando condições para o desenvolvimento de novas formas de comunicação e o fortalecimento de veículos com independência frente aos grandes grupos econômicos. Aqui mesmo no Brasil, segue tramitando o projeto do Senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG), que busca impor limitações à web brasileira. Projetos semelhantes são discutidos em outros países ditos democráticos, para não falarmos das ações da China e de outros governos que buscam filtrar e censurar o acesso à web.
Em seu mais recente feito, Asenje e seu WikiLeaks conseguiram desnudar os meandros da diplomacia norte-americana, criando sérios problemas para as relações da superpotência dominante nos quatro cantos do planeta. Permitiu-nos também compreender um pouco melhor a visão geopolítica da burocracia do Império e o grau de primitivismo e de ignorância em que evolui este “pensamento”.
Isto bastou para que a defesa das liberdades tenha sido prontamente esquecida pelos que cotidianamente se arvoram como os baluartes da Democracia. Das profundezas do conservadorismo norte-americano, viés “Tea Party”, surgem demandas pela “execução” de Asenje, com qualquer verniz “libertarian” guardado para os momentos de festa. Em termos de ação concreta, fecha-se o cerco sobre o veículo – fundos são bloqueados, hospedagem em servidores é eliminada, meios de pagamento e arrecadação de recursos fecham as portas. Uma perseguição digna de qualquer “thriller” de espionagem.
A velha mídia, inclusive a brasileira, cala-se frente ao escândalo desta ação articulada contra a liberdade de expressão. Nenhum editorial rompe o silêncio sepucral que emana da narração fria dos fatos, com direito a “opiniões” dos comentaristas alinhados com a ação do governo norte-americano e de seus aliados.
Para os seus detratores e perseguidores, não importa que o WikiLeaks não seja responsável pela obtenção das informações “confidenciais”, atividade que eventualmente poderia incorrer em crime conforme a legislação de cada país. Basta que tenha se proposto a veicular, a difundir as informações disponibilizadas por terceiros. A defesa das fontes sempre foi uma prerrogativa da Imprensa, que tem como missão maior garantir que informações, consideradas secretas ou não, cheguem ao conhecimento da sociedade.
A defesa do direito à informação e ao conhecimento sobre a ação e o funcionamento dos Governos é uma conquista da Civilização. Não devemos nos calar neste momento em que tais conquistas são colocadas em risco em nome das razões de Estado.