Bruno Linhares

Contracultura e Internet

Publicado em Cultura by brunolinhares em Junho 19th, 2008

Na comemoração dos 40 anos do ano de 1968, volta à baila a discussão da “contracultura”. O aniversário do ano que não terminou enseja a visitação a um dos aspectos mais instigantes da história da cultura das últimas décadas : a celebração das utopias no cotidiano, tentativa febril de uma parcela  juventude (e de outros não tão jovens) de viver na prática um outro modo de vida e de arte.

 

Do ponto de vista do pragmatismo reinante atualmente, as propostas éticas e estéticas daquela época podem parecer ao mesmo tempo pretensiosas e ingênuas.  Mas sua radicalidade expressa no fundamental uma ruptura com uma ordem que combinava o pior do conservadorismo, da repressão e da dubiedade moral. Apresentava um novo olhar que em muitos aspectos é aceito e adotado cotidianamente na sociedade contemporânea.

 

No contexto das comemorações, é notável a participação dos “releitores” da utopia. Em especial, a de um afamado personagem, “neé” candidato a prefeito de uma importante capital e lembrado por sua participação política naquele período. Esse senhor afirma que a herança da contracultura atualmente se articula … na web.

 

Os que vivem da e trabalham na web, sabem quanto é tola essa afirmação. O espaço da internet, como pude observar em outros artigos, traz em si uma nova proposta multidirecional inédita, mas ainda assim é um eixo de negócios e de comunicação e não uma proposta cultural e política.

 

É uma plataforma  que serve como meio para a difusão de mensagens publicitárias, venda de produtos, comunicação de notícias, rede de contatos e de encontros. A internet é tão alternativa hoje como o mimeógrafo o foi para a geração de poetas udigrudi – ou seja, absolutamente nada representa além de um artefato técnico e neutro.

 

Menos avisados, como o candidato em questão, confundem a aura de novidade e pioneirismo que cercou o lançamento da internet e a acompanhou por esses poucos anos de existência com algum  significado transcendentemente cultural.

 

Os pioneiros da aviação ou da prensa, os primeiros mecânicos de automóveis ou  radialistas de primeira hora também tiveram o privilégio de participar de importantes mudanças tecnológicas, avanços fundamentais para a humanidade. Mas nem por isso foram elencados como os transformadores diretos dos paradigmas culturais de sua época. Esses são outros. Mais dificilmente reconhecidos pelo “status quo” no primeiro momento.

 

A Opinião Publica e seu simulacro

Publicado em Redes Sociais by brunolinhares em Abril 14th, 2008

Sob a inspiração de Margareth Tatcher – “there is not such thing as society” – podemos nos questionar sobre o que exatamente representa a tão decantada opinião pública nesses tempos de web 2.0. Ainda que o ultra liberalismo esteja tão fora de moda, em plena ressaca de subprimes, quanto as considerações críticas sobre o pensamento da Dama de Ferro, a questão parafraseada é pertinente.

 

Afinal, as redes sociais na web se constituem em um formato que empresta “materialidade” inédita a manifestação do público sobre ampla gama de assuntos. Fala-se da “Tirania da Transparência” - não existiriam mais barreiras para que a avaliação das pessoas possa ser diretamente expressa, percebida e divulgada. É tempo de manifestar-se no espaço da rede e garantir o registro perene das próprias opiniões, complementado pelos comentários dos amigos ou demais pessoas conectadas em sua rede.

 

A Sra Tatcher complementava seu raciocínio assumindo que o lugar da inexistente sociedade era na realidade ocupado por homens e mulheres, que como indivíduos ou núcleos familiares representariam o formato básico de congregação da espécie humana. De forma análoga, podemos considerar que a fragmentação existente nas redes sociais, formadas por círculos encadeados de pessoas, unidos por vínculos de afinidade, representa a opinião pública no Século XXI.

 

No entanto, o conceito de “Opinião Pública”, assim como o de “Sociedade Civil”, tem ligação com a construção da cidadania e dos direitos civis, árduas conquistas da Civilização nos séculos passados. A Opinião Pública tem relação com a construção do Consenso ou com a explicitação das contradições no seio da sociedade. Por intermédio dos mecanismos de comunicação social e de participação cívica, o exercício da cidadania é realizado. As formas democráticas de gestão do Estado e das relações sociais estão baseadas no diálogo contínuo com os agentes sociais e com o respeito a Opinião Pública.

 

Então a opinião dispersa do público é essencialmente diversa da Opinião Pública, no que esta traz de essencial. As redes sociais são importantes veículos de comunicação. Inauguram um formato multi direcional, com amplo sucesso e adesão crescente dos internautas. Mas enquanto expressão da opinião pública, não vão além de seu simulacro.

Critérios Sociais para a Relevância

Publicado em Comunicação e Busca by brunolinhares em Março 15th, 2008

relevancia.jpg O oráculo contemporâneo tem, de forma análoga ao seu antecessor mitológico, obscuros critérios para a escolha de suas respostas. Aos que buscam informações no Google ou no Yahoo, milhares de possibilidades de retorno são oferecidas.  

Mas sabe-se que os internautas chegam, no máximo, à terceira página de navegação. Então ficar na primeira página é essencial aos que buscam relevância na rede. Como e porque são escolhidos os felizardos é considerada hoje como uma questão interna da empresa que fornece o mecanismo da busca. Que também comercializa, através dos links patrocinados, um atalho. Por certo, pode-se pagar pela relevância. 

Interessa ao conjunto da sociedade o critério “natural” da ordenação relevante – o oligopólio atual transfere para poucos um poder extraordinário. As possibilidades de manipulação em larga escala, a censura sistemática e a construção de uma unificação inédita do discurso podem hoje parecer fantasiosas, mas a experiência histórica acumulada demonstra aonde pode-se chegar na tentativa de influenciar corações e mentes. 

A questão colocada é como a sociedade pode influenciar, auditar, normatizar e até mesmo gerir os critérios de relevância. A “wiki” esfera tem apresentado algumas propostas, de forma vaga : caberia aos usuários da rede a definição da relevância, com mecanismos geridos, é claro, por eles próprios, em seu próprio mecanismo de busca. Mas essa forma “censionária”, também objeto de manipulação e dificilmente auditada em minha opinião não responde a essa difícil questão. 

Além da complexidade técnica, há desafios políticos e institucionais – a saída deve ser global, envolvendo órgãos governamentais representativos e instituições da sociedade civil. Como as soluções de busca são “produtos”, originados nas condições de mercado através de empresas privadas com atuação global, não vejo outra possibilidade que não  a alternativa da certificação.  Ou seja,que órgão regulador, com abrangência e representatividade internacional, com composição ampla e plural, possa através da avaliação e certificação dos processos de busca, tranqüilizar e tornar claro aos consumidores de que critérios objetivos e imparciais são os considerados na definição das respostas às suas perguntas. 

É importante que essa discussão avance. Já passamos de 1984 há muitos anos, mas o “Big Brother” ainda pode estar na casca do ovo de alguma serpente virtual.

A Comunicação e a Ditadura da Busca

Publicado em Comunicação e Busca by brunolinhares em Março 2nd, 2008

ditadura_implicita.jpg

O espetáculo precisa continuar. E desde sempre neste mundo, a inocência não freqüenta o palco. Na era da comunicação, tudo se transforma rapidamente e a metamorfose ocorre diante dos olhos dos espectadores. 

Assim, a arena das mais radicais mutações nas últimas décadas esteve localizada nos meios de comunicação e, não à toa, tudo o que acontece nesse terreno têm resultado direto na economia de mercado. A mídia enquanto indutora e construtora de novos modelos de comportamento e de consumo tem sido o eixo central do salto qualitativo para que tenha sido alcançado o “estágio pós industrial” da economia. Uma ligação estrutural, porquanto a sociedade de consumo depende do fluxo de necessidades e do despertar contínuo dos desejos para que se mantenha o equilíbrio entre a procura e as necessidades próprias da produção.  

O modelo dominante é unidirecional – a mensagem, gerada em alguns poucos centros produtores, é difundida para milhões (ou bilhões) de pessoas através de avançada tecnologia de comunicação que transformou o planeta na “aldeia global”. Através dessas mensagens, com potência e influência inéditas na história da Humanidade, trafegam conceitos, idéias, propostas que ao atingir a ampla parcela de homens e mulheres dos mais diferentes segmentos, tem como conseqüência não só uma padronização e uniformização do comportamento e dos anseios como também uma transformação profunda da influência dos detentores das marcas ou signos que as expressam. 

A história da comunicação humana, desde os tempos dos copistas dos conventos medievais de antes da invenção da imprensa, é marcada pela concentração do poder na atividade de veiculação. De forma que o crescimento do valor agregado na engrenagem da produção de mensagens também iria naturalmente aumentar o nível de concentração da propriedade nos meios de difusão. A hiper concentração da propriedade e dos grupos empresariais, tendência retomada com punjança desde a década de 90 do século passado, também teve profundos efeitos nos meios de comunicação, com intensidade variável conforme da legislação de cada país.  

Este sistema teve, no entanto e como sempre, um fenômeno que lhe balançou as bases, uma das mais instigante revoluções nos meios de comunicação - o advento da internet. A web, nascida nos meios acadêmicos e utilizada inicialmente para divulgação de informações entre pesquisadores, tem seus traços essenciais definidos na origem : multidirecional, “livre” de interferência e censura, aberta a todos (desde que com acesso ao computador e à uma linha de comunicação), sem fronteiras, em escala planetária. 

Como nunca e a custos nunca antes experimentados, multiplicam-se centros geradores de mensagens e informação. E como o jogo é interativo, envolve intensa troca de mensagens em texto, sons e imagens. Vários ramos de negócio sentem logo o seu efeito, particularmente a indústria cultural e o turismo, confirmando a tese inicial deste artigo - a profunda dependência estrutural para com os meios de comunicação, muito além do que se reconhece nos manuais de marketing. 

Como habitualmente nas revoluções tecnológicas, sua emergência  trouxe uma fase inicial de indefinições, na qual ainda não despontavam os líderes e os padrões que o mercado posteriormente iria consagrar. Vivemos, no período da bolha, as apostas e os “leilões” do futuro, para regozijo de alguns e decepção de muitos. No entanto, com esses anos já transcorridos, agora é possível descortinar um pouco melhor se não o futuro mas pelo menos quais são os focos de disputas e os movimentos estruturais.  

O caráter inicialmente mais “democrático” da internet, quanto à possibilidade material de multiplicação da geração e veiculação de mensagens e do conteúdo pela redução radical de seus custos, deslocou o eixo do processo de comunicação. Com bilhões de páginas e mensagens já disponíveis na rede, a questão essencial passa pela obtenção da visibilidade através da conquista do tráfego e da relevância. 

Cabe então também notar que o caráter interativo evidencia outra característica do novo paradigma da comunicação : a possibilidade de declarar e procurar na rede o conteúdo de interesse e não receber passivamente as mensagens escolhidas, por exemplo, pela programação da mídia convencional. Neste mecanismo, “a Busca”, se encontra hoje o elemento estruturante, o terreno de embate e a nova concentração de poder no processo de comunicação contemporâneo. 

Através da busca, a relevância é “revelada”, o tráfego é obtido, a liderança e a primazia da mensagem são alcançadas. Pois desloca-se os custos e o poder - antes concentrados na produção e na veiculação, hoje na obtenção da “relevância”. Claro está que os critérios de relevância são o  coração e o mais bem guardado segredo das empresas que constituem-se no oligopólio mundial da busca, Google e Yahoo. E não por acaso assistimos uma feroz concorrência com grandes marcas como Microsoft e a própria Google buscando obter o monopólio em soluções de busca. 

Hoje entre as principais marcas do mundo, essas duas gigantes aparentemente darão a tônica do novo paradigma da comunicação – o critério de relevância e a obtenção da visibilidade no meio de comunicação que em breve será o dominante. A discussão a ser feita agora na sociedade é de quais são os critérios para a definição da relevância e qual será a participação da opinião pública neste “rankeamento”. A tarefa de estabelecer e implementar políticas, regras e práticas de relevância são importantes demais para ser executada pela direção de uma só empresa. Mas isto é o tema do próximo artigo.